segunda-feira, 18 de abril de 2011

O lado da radiação que pode salvar

A radiação que assustou o mundo após o acidente nuclear no Japão é uma importante aliada da medicina no diagnóstico e tratamento de doenças

Fonte: Site Zero Hora - 16 de abril de 2011.

A radiação salva. A ideia parece distante da realidade quando se pensa no recente acidente nuclear provocado por um terremoto em Fukushima, no Japão. Embora a exposição excessiva à radiação apresente malefícios, a utilização em níveis adequados ajuda a salvar vidas.

— A radioatividade é a mesma sempre. O que vai variar são os tipos de isótopos que estão sendo usados e o tempo em que as pessoas estarão expostas — diz a chefe do Serviço da Medicina Nuclear do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), médica nuclear Ilza Moraes.

Em aliança com a medicina, a radioatividade é utilizada como importante ferramenta para diagnósticos por imagem e tratamento de enfermidades.

Há os métodos tradicionais, como Raio X, tomografia computadorizada e cateterismo, e o mais recente, a chamada medicina nuclear, na qual o paciente ingere, inala ou recebe por via endovenosa o radiofármaco que contém pequenas quantidades de radiações. É possível tanto diagnosticar doenças quanto usá-la com objetivos terapêuticos _ como a iodoterapia para tratar problemas de tireoide.

Segundo o médico nuclear do Hospital Moinhos de Vento Gabriel Blacher Grossman, após ingerir a substância radioativa, o paciente é posicionado sob um equipamento chamado gama-câmara para a realização do exame denominado cintilografia. O radiofármaco se concentra no órgão avaliado, emitindo a energia que será captada pelo equipamento. Por meio de sofisticados softwares, essa energia é transformada em uma imagem que será analisada pelo médico.

— Essa imagem é fundamental para a avaliação do órgão que será examinado. É importante frisar que utiliza-se uma pequena dose de radiação de baixa intensidade, ou seja, que não faz mal à saúde. Em contrapartida, o exame proporciona o benefício da informação, como a descoberta de um câncer, que é muito maior do que o risco da radiação em si — diz o médico.

Atualmente, são realizadas cintilografia miocárdica (do coração), óssea, renal, cerebral, pulmonar, da tireoide, da paratireoide, das glândulas salivares, entre outros órgãos. Como o radiofármaco se distribui pelo órgão a ser estudado, o médico pode avaliar o seu funcionamento e detectar a presença de doenças que, muitas vezes, podem não ser percebidas por outros exames.

Cerca da metade das cintilografias realizadas nos hospitais é a do miocárdio (coração). Esse exame avalia a circulação do sangue pelas coronárias e pode revelar a presença de isquemia — falta de circulação do sangue no coração — ou de infarto.

— O exame tem destaque na medicina nuclear porque ajuda a definir os primeiros passos que o médico vai tomar com o paciente que chega com uma dor no peito, por exemplo — explica Grossman.

Nova arma contra câncer

Dentro da área da medicina nuclear existe um equipamento de última geração capaz de mudar os rumos de um tratamento de câncer. O PET-CT é responsável por combinar duas técnicas que antes tinham de ser empregadas separadamente: a imagem anatômica e a imagem funcional, que é uma espécie de fotografia detalhada que destaca os tecidos e órgãos utilizando flúor 18.

Dessa forma, ele produz um terceiro tipo de imagem que facilita o diagnóstico de pacientes com câncer, também servindo para determinar o estágio de avanço da doença e as chances de recuperação do portador, além de permitir melhor definição do tratamento e melhorar o monitoramento de cada caso.

— O PET-CT mostra um tumor quando os outros métodos de imagem não conseguem. Ele está em voga porque mudou definitivamente a conduta médica ao dar um novo rumo ao tratamento, podendo por exemplo cancelar uma intervenção cirúrgica — esclarece a médica nuclear Clarice Sprinz, chefe do Serviço de Medicina Nuclear e PET-CT do Hospital Mãe de Deus.

Para isso, é preciso injetar no paciente, antes do exame, um composto com glicose. As células doentes costumam consumir mais glicose do que as normais, e essa diferença é captada pelo equipamento, que indica com clareza o local exato da lesão. A sensibilidade do PET-CT possibilita até mesmo ver se determinado câncer está ativo ou não. Com esses dados em mãos, os médicos têm melhores condições para determinar o diagnóstico, a extensão do câncer e o tratamento. Em 30% a 50% dos casos, muda-se a forma de tratamento após o exame.

— É aplicado para vários tipos ou suspeitas de câncer, mas principalmente linfomas, de pulmão, melanoma (pele), de cabeça e pescoço, colorretal. Além disso, estão na lista o de esôfago, tireoide e mama em estágio avançado — diz a médica.

A contraindicação é para gestantes devido à radiação emitida durante o procedimento. Também é necessário que os pacientes diabéticos estejam com a doença controlada.

O gosto da esperança

Em 2009, a psicóloga e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Carla Vasques, 42 anos, descobriu num exame de rotina que seu TSH (hormônio estimulante da tireoide) estava um pouco elevado. A endocrinologista solicitou uma ecografia da glândula, e o exame detectou um nódulo de 0,5 centímetros. O próximo passo foi uma biópsia, que acabou apontando um carcinoma. Carla era portadora de um câncer.

— Apesar do susto — a palavra câncer é impactante —, a cirurgia (para remoção da tireoide, a tireoidectomia) foi supertranquila. É importante cercar-se de bons médicos. Além disso, cercar-se de pessoas que nos amam é fundamental — diz a psicóloga, lembrando que, durante um mês, a recomendação foi não usar hormônios e cortar todo o sal e alimentos iodados, tudo em função da iodoterapia que estava por vir.

Carla desconhecia essa área da Medicina. Conta que teve medo.

— Seria uma mulher radioativa? Ficaria verde? Pensei muitas bobagens. Chorei. No dia de tomar o iodo, a médica levou-o em uma caixinha toda blindada, altamente contaminante. Para uma pessoa saudável, a radioatividade é um veneno. Para mim, foi a cura. Um vidro bem pequeno. Um líquido incolor, sem cheiro. Bebi com toda a minha força e fé. E, afirmo, o gosto é de esperança — lembra.

Desde então, Carla faz exames regularmente e usa medicação todos os dias. Ela tem uma vida normal, e está curada.

Tire suas dúvidas

:: O que é radiação?
É a energia que se propaga no espaço na forma de partículas ou ondas eletromagnéticas. Ela é emitida por núcleos de átomos radioativos.

:: Onde ela está presente?
Há a radiação natural presente na Terra. O homem também pode criar novos elementos radioativos, como um reator nuclear, ou mesmo máquinas que geram radiação, por exemplo um Raio X diagnóstico.

:: Radiação faz mal?
As radiações não são inócuas, elas podem produzir alterações que levam à morte ou a mutações celulares. Por esse motivo, elas são utilizadas em tratamentos médicos para eliminar células cancerígenas. Por outro lado, são úteis para a formação de imagem para diagnósticos e para tratamento de doenças.

:: O que é medicina nuclear?
A medicina nuclear é uma especialidade médica que utiliza pequenas doses de radiação para a realização de diagnósticos e doses um pouco maiores com objetivos terapêuticos (tratamento de doenças da tireoide, por exemplo). Na área diagnóstica, a medicina nuclear avalia predominantemente o funcionamento do órgão analisado. Existe também o uso de radiação para tratamento paliativo da dor óssea em pacientes com câncer.

:: Que que é iodoterapia?
A parte da medicina nuclear que busca eliminar o câncer de tireoide é a chamada iodoterapia, um tratamento feito à base de iodo-131. Depois de retirar o câncer de tireoide por meio de cirurgia, o paciente passa para um leito especial no hospital, onde ingere uma dose de iodo radioativo via oral. O iodo faz parte do metabolismo da tireoide na síntese dos hormônios tireoideanos. Ao fazer o tratamento, a iodoterapia remove os restos da tireoide e a metástase se houver. Há grandes chances de cura para esse tipo de câncer.

:: Qual a diferença do líquido que vazou dos reatores nucleares de Fukushima, no Japão, e o iodo-131 usado na iodoterapia?
É o mesmo, o que muda é a quantidade. A dose usada no tratamento é tão pequena que pode ser comparada com um grão de areia no deserto. Por isso não faz mal.

:: Que exames usam radiação?
O ultrassom (como se fosse um radar), a ressonância magnética (utiliza ondas de rádio), a tomografia computadorizada (radiação ionizante, onde o equipamento emite radiação). Na medicina nuclear, as cintilografia utiliza radioisótopos.

:: Como sei que estou recebendo radiação por meio de um exame?
O paciente deve receber a orientações sobre o exame.

:: Faz mal receber essa radiação?
A quantidade é mínima e não faz mal, mas o exame sempre deve ter indicação médica.

:: Existe um período que se deve respeitar entre um exame e outro?
Não existe um período mínimo estabelecido. Deve ser feito de acordo com indicação médica e a necessidade.

:: Crianças podem receber?
Se há indicação, sim. As doses de radiofármaco são ajustadas por peso.

:: Por que a radiação causa câncer?
A radiação só causa câncer em quantidades muito superiores a estabelecidas em convenções internacionais ou quando a pessoa é submetida a exposições prolongadas. Nesse caso, ela transfere a sua energia para componentes vitais nas célula, o que altera a sua estrutura e consequentemente, a sua função.

Fontes Originais: físico Edulfo Eduardo Dias Rios, professor do Departamento de Biofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), físico nuclear Telpo Martins Dias, médica nuclear Clarice Sprinz, chefe do Serviço de Medicina Nuclear e PET-CT do Hospital Mãe de Deus, médica nuclear Ilza Moraes, chefe do Serviço do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA)

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